“O talento individual potencia a equipa, e a equipa potencia o jogador individual”  JESÚS GARCÍA (FCB).

No âmbito do Campeonato de Espanha de Seleções Autonómicas Infantil e Cadete, continuamos a dar voz aos selecionadores autonómicos para perceber como preparam as equipas, que critérios orientam as suas decisões e que valores inspiram o seu trabalho. Uma oportunidade para entrar na metodologia, na visão e no dia a dia de quem impulsiona o basquetebol de formação a partir de dentro.

Desta vez, falamos com Jesús García, Selecionador Infantil Feminino da Federação Canária de Basquetebol, que nos explica como maximiza a aprendizagem das suas jogadoras em pouco tempo, como organiza papéis e treinos e como equilibra o desenvolvimento individual com a coesão coletiva. Analisa ainda os aspetos defensivos e ofensivos que considera essenciais e a forma como promove a tomada de decisão dentro da equipa.

Uma conversa cheia de experiência, reflexão e paixão pelo basquetebol formativo, que mostra como se constroem equipas com identidade, compromisso e projeção ao mais alto nível da formação.


ENTREVISTA

Jesús García prepara-se para orientar a seleção infantil feminina das Canárias no próximo Campeonato de Espanha de Seleções Autonómicas Infantil e Cadete 2026, conjugando experiência e atenção ao detalhe. Com uma abordagem centrada na aprendizagem rápida, na tomada de decisão e na coesão da equipa, García abre-nos a porta à sua forma de trabalhar: como atribui papéis, gere os treinos e fomenta hábitos defensivos e ofensivos que reforçam tanto o rendimento como a confiança das suas jogadoras. Esta entrevista oferece uma visão próxima da sua metodologia, dos desafios de preparar uma equipa em pouco tempo e da filosofia que impulsiona as suas jogadoras a crescer dentro e fora do campo.

Já participaste noutros Campeonatos de Espanha. O que mais gostas e o que sentes falta nestes torneios?

Sim, tive a sorte de participar noutros Campeonatos de Espanha e, sem dúvida, aquilo de que mais gosto é o nível de aprendizagem que proporcionam. Em muito poucos dias, as jogadoras enfrentam ritmos e exigências muito diferentes, o que acelera imenso o seu crescimento, tanto desportivo como pessoal. É também uma experiência única de convivência e de sentimento de pertença à seleção canária.

Se tiver de apontar algo que faz falta, talvez seja dispor de mais tempo. Mais tempo para treinar, para assimilar conceitos e para desfrutar um pouco mais do processo, porque estes torneios passam muito depressa e tudo acontece a uma velocidade enorme.

Definis antecipadamente os papéis das jogadoras em função das suas qualidades ou esses papéis constroem-se em campo?

Existe uma ideia prévia baseada no conhecimento que temos das jogadoras e das suas qualidades, porque isso ajuda a organizar a equipa e a que todas se sintam úteis desde o início. Mas esses papéis não são fechados nem definitivos.

Os papéis acabam por se definir em campo, no dia a dia, na forma como treinam, competem e respondem às diferentes situações. Nos escalões de formação é importante dar-lhes margem para crescer, assumir responsabilidades e adaptar-se, colocando sempre em primeiro lugar aquilo de que a equipa necessita em cada momento.

Como organizas a informação que transmites nos tempos mortos da equipa?

Procuro que a informação seja muito clara e muito concreta. Num tempo morto não é possível abordar tudo, por isso priorizamos uma ou duas mensagens-chave, normalmente relacionadas com o que está a acontecer naquele momento do jogo.

Nestas idades é fundamental que saiam do tempo morto com uma ideia clara e com confiança para a executar em campo.

Corriges pormenores de técnica individual durante os jogos? Porquê sim ou porquê não? Qual é a tua opinião?

Depende muito do momento e do tipo de pormenor. Durante o jogo tento não sobrecarregar as jogadoras com correções técnicas profundas, porque o jogo tem um ritmo e uma carga emocional elevados. Em competição damos prioridade à tomada de decisão e à compreensão do jogo.

Corrigem-se pequenos ajustes ou lembretes simples, sobretudo se ajudarem a resolver melhor uma situação concreta, mas o trabalho mais detalhado da técnica individual é feito nos treinos. Em jogo procuramos dar confiança e ajudar a que executem com segurança aquilo que já foi trabalhado.

Diz-nos duas particularidades da defesa da tua equipa que são importantes para ti e que, em geral, passam despercebidas.

Para mim há dois aspetos defensivos que dizem muito sobre o carácter de uma equipa. O primeiro é a comunicação: falar, avisar, incentivar a colega. Quando uma equipa comunica bem em defesa demonstra que está unida e ligada, mesmo quando está cansada ou quando as coisas não estão a correr bem.

O segundo é a disponibilidade para ajudar. Aquela jogadora que chega um segundo atrasada mas chega, que corre para fechar um espaço mesmo que não apareça na ação final. Esse esforço silencioso, essa generosidade defensiva, é algo que nem sempre se vê, mas que constrói equipas sólidas e com identidade.

Defesa à bola: a este nível competitivo, orienta-se a atacante com bola? Trabalha-se em função da organização defensiva coletiva, da mão dominante da jogadora com bola, da zona do campo…?

Sim, a defesa à bola é orientada, mas sempre dentro de uma ideia coletiva. Não se trata apenas de travar a jogadora com bola, mas de o fazer de forma a ajudar a equipa a defender melhor.

Temos em conta vários fatores: a organização defensiva da equipa, a mão dominante da atacante e a zona do campo onde a ação ocorre. Tudo isso nos permite decidir para onde orientar e que tipo de ajudas teremos atrás.

Sendo uma seleção com pouco tempo de trabalho, é ainda mais importante que as jogadoras compreendam que a sua defesa à bola faz parte de um sistema coletivo e que cada ação tem um significado dentro da estrutura da equipa.

Indica dois aspetos do ataque coletivo que consideras determinantes e que são objetivos complexos de alcançar.

No ataque coletivo há dois aspetos que considero determinantes e, ao mesmo tempo, difíceis de conseguir. O primeiro é a circulação rápida e eficaz da bola. Conseguir que todas as jogadoras se movimentem com sentido, passem com critério e criem vantagens exige muito entendimento e trabalho prévio, algo que normalmente não temos.

O segundo é a tomada de decisão sob pressão. Que cada jogadora saiba quando passar, quando cortar, quando lançar ou quando esperar não é algo que se improvise; resulta de treino, leitura do jogo e confiança nas colegas.

Qual é o equilíbrio perfeito entre o jogo 1×1 e o jogo coletivo?

O equilíbrio perfeito passa por o jogo 1×1 estar sempre ao serviço do coletivo, e não o contrário. O 1×1 é importante porque permite às jogadoras desenvolver recursos técnicos, confiança e capacidade de decisão, mas nunca deve quebrar a estrutura da equipa.

Procuramos que cada ação individual se integre no movimento coletivo: que o desmarque, a penetração ou o um-contra-um gerem espaços, vantagens e opções para as colegas. Em suma, o talento individual potencia a equipa, e a equipa potencia o jogador individual.

Até onde pode ir a leitura do ataque nestas categorias? Espaços, vantagens físicas nos emparelhamentos, jogadoras carregadas de faltas…?

Nestas categorias, a leitura do ataque já pode ser bastante boa, sempre adaptada ao nível e à experiência das jogadoras. Podem aprender a identificar espaços livres, a aproveitar vantagens físicas nos emparelhamentos e a reagir quando uma colega está carregada de faltas.

O importante é que compreendam que cada decisão tem um objetivo dentro do jogo coletivo: não se trata apenas de executar, mas de ler a situação e agir de forma a beneficiar a equipa. Mesmo no escalão infantil, este tipo de leitura faz a diferença.

Gostas que as tuas jogadoras passem pelos bloqueios ou que troquem neles? Trabalhas em função do tempo de posse e do local onde o bloqueio acontece?

Gosto que as jogadoras tenham alternativas e saibam decidir: podem passar pelo bloqueio ou trocar, consoante a situação e o que for mais conveniente para a equipa. Não é uma regra fixa, mas uma decisão que faz parte da leitura do jogo.

Vamos a elas. 1, 2, 3… Canárias!