MINIBASQUETEBOL — A BASE QUE NÃO PODE SER NEGOCIADA

Berta Herrán Barba

Se queremos formar jogadores, temos de começar por formar bem no Mini.

Há uma ideia que devia ser consensual na formação:

O Minibasquetebol não é apenas uma etapa de passagem. É o lugar onde se constrói a base de tudo o que vem depois.

É no Mini que começamos a definir hábitos técnicos, princípios táticos, relação com o jogo, capacidade de decisão e, sobretudo, a relação do jogador com o erro, com a competição e com a aprendizagem.

São anos decisivos.

E aquilo que não for construído nessa fase terá, mais tarde, de ser recuperado — muitas vezes com enormes dificuldades.


O problema não é ter jogadores fracos. É ter jogadores sem base.

É perfeitamente normal que uma equipa de Pré-Infantis tenha jogadores com diferentes níveis.

O problema aparece quando chegamos a essa idade e descobrimos que alguns jogadores não têm os fundamentos mínimos que deveriam ter adquirido anos antes.

Jogadores que não dominam a mão esquerda.

Que não sabem fazer uma entrada corretamente.

Que não controlam os apoios.

Que não sabem ocupar espaços.

Que não compreendem quando devem passar, cortar, penetrar ou criar espaço.

E então perguntamo-nos:

Como podemos ensinar conteúdos mais complexos se a base não está construída?

Não podemos.

Antes de ensinar sistemas, conceitos avançados ou estruturas ofensivas sofisticadas, temos de garantir aquilo que deveria estar adquirido:

domínio do corpo + domínio da bola + técnica individual + espaço + decisão.


O Mini não é “só para brincar”

Existe uma confusão perigosa na formação.

Pensar que, porque estamos a trabalhar com crianças, o treino deve ser apenas diversão.

Claro que o treino deve ser divertido.

Mas divertido não significa desprovido de intenção pedagógica.

Uma criança pode divertir-se enquanto aprende.

Pode competir enquanto aprende.

Pode falhar enquanto aprende.

Pode ser corrigida enquanto aprende.

Pode repetir centenas de vezes uma ação técnica e continuar motivada, desde que compreenda o desafio e perceba a sua evolução.

O treinador de Mini não tem de escolher entre:

diversão OU aprendizagem.

O desafio é conseguir:

APRENDIZAGEM + COMPETIÇÃO + DIVERSÃO.


Que treinador colocamos no Mini?

Esta é talvez uma das perguntas mais importantes que um clube deveria fazer.

Muitas vezes acontece exatamente o contrário do que deveria acontecer.

Os treinadores mais experientes são colocados nas equipas mais velhas.

E o Mini fica entregue aos treinadores mais jovens.

Não há nada de errado em um treinador jovem trabalhar no Mini.

O problema é deixá-lo sozinho.

Um treinador em início de carreira precisa de acompanhamento.

Precisa de observar.

Precisa de discutir.

Precisa de receber feedback.

Precisa de saber:

O que ensinar?

Em que sequência?

Como ensinar?

O que corrigir?

O que não corrigir ainda?

Como criar exercícios que provoquem aprendizagem?

O clube que quer formar jogadores deve também formar os seus treinadores.


O diretor técnico também treina

Uma estrutura de formação séria não pode limitar o trabalho da direção técnica a fazer horários, organizar equipas e resolver problemas administrativos.

A direção técnica deve estar dentro do processo.

Deve observar treinos.

Deve acompanhar treinadores.

Deve definir prioridades.

Deve criar uma linguagem comum.

Deve estabelecer conteúdos por escalão.

Deve garantir continuidade.

Porque um jogador não começa de novo todos os anos.

O jogador evolui.

Por isso, o processo também tem de evoluir com ele.


Do Mini ao Júnior tem de existir uma linha

Mini.

Infantis.

Cadetes.

Juniores.

Não podem ser quatro mundos diferentes.

O jogador deve sentir que está a percorrer um caminho.

Isso não significa que todos os treinadores tenham de fazer exatamente os mesmos exercícios.

Significa que devem existir princípios comuns.

Por exemplo:

Técnica individual

  • domínio da bola;
  • passe;
  • receção;
  • lançamento;
  • entradas;
  • drible;
  • mudanças de direção;
  • utilização das duas mãos.

Tática individual

  • vantagem;
  • espaço;
  • penetração;
  • passe;
  • corte;
  • decisão.

Tática coletiva

  • ocupação racional do espaço;
  • criação de linhas de passe;
  • reação à ajuda;
  • circulação da bola;
  • criação de novas vantagens.

Tudo isto pode ser ensinado progressivamente.


E há outra competência que temos de ensinar: ERRAR

Talvez uma das maiores falhas da formação atual seja esta.

Queremos jogadores confiantes.

Mas, muitas vezes, protegemo-los tanto do erro que não lhes permitimos aprender a lidar com ele.

No basquetebol:

falhar faz parte.

Falhar um lançamento.

Perder uma bola.

Escolher mal.

Não conseguir ultrapassar o defensor.

Fazer uma má decisão.

Chegar atrasado à ajuda.

Falhar uma entrada.

É normal.

O problema não é errar.

O problema é não aprender com o erro.

O treinador deve criar um ambiente onde o jogador possa:

tentar → falhar → perceber → corrigir → voltar a tentar.

É assim que se desenvolve um jogador.


Competir também se aprende

Outra ideia que merece reflexão:

não devemos esperar pelo escalão competitivo para ensinar a competir.

A competição deve estar presente desde cedo.

Não significa transformar o Mini numa obsessão pelo resultado.

Significa ensinar a:

  • disputar uma bola;
  • ganhar uma posição;
  • defender;
  • atacar um espaço;
  • tomar decisões sob pressão;
  • lidar com o sucesso;
  • lidar com a derrota;
  • aceitar uma correção;
  • continuar depois de falhar.

Competir é uma competência.

E, como qualquer competência, aprende-se.


O verdadeiro resultado da formação

É fácil avaliar um treinador pelo número de vitórias.

É muito mais difícil avaliar o seu trabalho pela evolução dos jogadores.

Uma equipa pode ganhar muitos jogos e estar a formar mal.

Outra pode perder muitos jogos e estar a construir excelentes jogadores.

Por isso, devemos fazer outras perguntas:

Os jogadores melhoram?

Dominam melhor a bola?

Tomam melhores decisões?

Compreendem melhor o jogo?

Aceitam melhor o erro?

Competem melhor?

São mais autónomos?

Gostam mais de jogar?

Essas respostas dizem-nos muito mais sobre a qualidade da formação.


O talento não aparece do nada

Quando vemos uma equipa de Infantis ou Cadetes jogar bem, existe uma tendência para dizer:

“Têm muito talento.”

Talvez.

Mas o talento também é consequência de um processo.

Por trás daquele jogador que hoje parece “talentoso” existem milhares de repetições.

Treinadores.

Famílias.

Clubes.

Erros.

Correções.

Decisões.

Treinos.

Jogos.

Anos de trabalho.

O talento pode aparecer. O desenvolvimento tem de ser construído.


A pergunta que cada clube deveria fazer

Não é:

“Quantos títulos ganhámos?”

Nem:

“Quantos jogadores conseguimos contratar?”

A pergunta deveria ser:

“Que jogadores estamos a formar?”

E, para responder a essa pergunta, temos de olhar para o início.

Para o Mini.

Porque quando a base é forte, o jogador pode crescer.

Quando a base é fraca, passamos os anos seguintes a tentar recuperar aquilo que deveria ter sido construído anteriormente.


No final, três palavras

Se tivesse de resumir aquilo que devemos procurar na formação em três palavras, seriam:

COMPETIR

Ensinar o jogador a querer jogar, disputar e superar desafios.

MELHORAR

Criar uma cultura em que cada treino tem um propósito e cada jogador procura evoluir.

ERRAR

Ensinar que o erro não é o inimigo da aprendizagem.

É uma das suas ferramentas.

Porque formar jogadores não é evitar que eles errem.

É ensiná-los a errar melhor.

E depois…

corrigir, aprender e tentar novamente.


MINIBASQUETEBOL NÃO É O INÍCIO DO CAMINHO.

É A FUNDAÇÃO DO CAMINHO.

Se queremos jogadores completos amanhã, temos de fazer melhor o Mini hoje.

Herrán Barba, B. (2025, May 9). Reflexiones sobre minibasket: La formación en minibasket es clave para construir jugadores completos. Substack. https://bertahb.substack.com/p/reflexiones-sobre-minibaske